Os Perigos do Excesso de Leitura

O assunto de hoje é polêmico. Tão polêmico que vou trazer  Rubem Alves e Arthur Schopenhauer para falar sobre isto:

“O excesso de leitura pode fazer você  desaprender a arte de pensar. Essa destruição do pensamento individual é consequência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Muitos acreditam que o pensamento [e a inteligência] está diretamente ligado ao número de livros lidos. Tanto que se criaram técnicas de leitura dinâmica, assim, você pode ler “Grande Sertão: Veredas” em pouco mais de três horas. Ler dinamicamente, como se sabe, é essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os clássicos “fichamentos” exigidos pelos professores. Mas isso pode ser perigoso demais.” Rubem Alves, Sobre os Perigos da Leitura (editado)

Quando o escritor, psicanalista e professor Rubem Alves  disse isso ele se referia à época em que era responsável pela seleção de candidatos ao doutoramento da Unicamp. Visualiza a cena: as pessoas iam super preparadas para a entrevista do doutorado,  já tinham treinado todo o provável discurso, estavam com suas cabeças cheias de grandes leituras, mas  em vez de uma série de perguntas para testar a capacidade acadêmica e filosófica dos candidatos, o entrevistador falava:

Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!’

Oi??? Como assim? Pera aí… Éééé… Então…  (MeuDeusdoCéumeAjude!)”

“Não nos interessávamos por aquilo que o candidato havia memorizado dos livros. Muitos idiotas têm boa memória. Interessávamo-nos por aquilo que ele pensava. Mas a reação deles, no entanto, não foi a esperada. Muitos entravam em pânico, e uma candidata teve até um surto […]. Estavam acostumados a papaguear os pensamentos dos outros.” Rubem Alves

Se os candidatos ao doutorado da Unicamp agiram assim, imagine os dos outros níveis universitários! Infelizmente, boa parte dos nossos acadêmicos estão cheios de tantas leituras e pensamentos já pensados.  Porque ensina-se a ler dinamicamente, mas não a pensar independentemente.

E no afã de aprenderem mais e mais, de lerem mais e mais, muitos não percebem que o excesso de estímulos informativos ou áudio visuais produzem o efeito oposto do esperado: prejudicam os processos cognitivos (pensamentos, aprendizagem, entendimento…). Por esse motivo, os neurocientistas aconselham o “descanso da mente”,  ou seja, a abstenção  das informações e da tecnologia de tempos em tempos. A propósito, o filósofo e escritor Schopenhauer também falou sobre isso:

“Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental. […] A leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa, sufoca o espírito pela imposição ininterrupta de pensamentos alheios.” Sobre Livros e Leitura, Arthur Schopenhauer

Não é estranho um blog de Literatura falar para você parar de ler (um pouco)? Talvez,  porque estou interessada no seu progresso intelectual, e não em estatísticas  — visto que o meu objetivo não é ter alunos e leitores que se juntem a esta multidão:

“A cada 30 anos desponta no mundo uma geração de pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios de modo sumário e apressado e depois querem ser mais espertas do que todo o passado.” Schopenhauer, A Arte de Escrever

Vai dizer que você não conhece nenhum “intelectual instantâneo” assim?  Aquele que se acha o mais esperto e erudito do mundo?  Claro, não pretendo aqui criticar àqueles que leem dinamicamente.  Minha intenção é mostrar que a melhor parte do conhecimento não está nos livros — ela está dentro de você.

Conhecer as principais obras literárias do mundo é ótimo. Dominar todas as teorias da sua área de estudo é melhor ainda. Mas vamos combinar? Chegar sozinho a uma conclusão importante, científica ou temática, através do seu raciocínio independente não dá um “UP” na sua autoestima intelectual? (Fala sério?!) Eu sei que isso também envolve uma série de outros conhecimentos apreendidos de terceiros (é óbvio!). Mas nenhum deles substitui o seu.  Sobre isso, o filósofo  encerra:

“As vezes é possível desvendar com muito esforço e lentidão por meio do próprio pensamento uma ideia que poderia ser encontrada confortavelmente nos livros. No entanto, ela é cem vezes mais valiosa quando é obtida pelo próprio pensamento.” Arthur Schopenhauer, A Arte de Escrever

 

P.S. Faz tempo que escrevi esse texto e faltava-me coragem para falar o que realmente penso sobre esse assunto. Mas uma longa e amável  conversa com uma querida amiga blogueira encorajou-me a publicar isso. Obrigada, Rebeka Plácido!

Elaine Rodrigues
Professora de Redação e Literatura
Autora do livro DESFRAGMENTOS: crônicas e poesias
E-mail: eredigindo@gmail.com

Leitura Complementar:

O Estilo Pessoal da Escrita

 

27 comentários em “Os Perigos do Excesso de Leitura

  1. Gostei da reflexão.
    Concordo, um pouco de desligamento e (particularmente, falo, no meu caso) meditação 😉 aí descanso a mente. Mas, eu, também não sou uma leitora excessiva de livros.

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  2. Owwn, ainda bem que todo aquele meu desabafo em forma monólogo entendiante deu força pra você publicar essa reflexão maravilhosa! kkkkkk

    Hoje eu tenho medinho do Schopenhauer porque que “hominho” pessimista, mas eu gosto muito desse livro “a arte de escrever”, é muita desconstrução para os inteligentinhos acadêmicos compreenderem e propagarem! kkkkk

    Acho que essa coisa toda de que o pesquisador acadêmico não pode ter a liberdade de pôr suas ideias no seu próprio trabalho e apenas coletar citações e construir ideias por meio de uma teia de informações de outros, é o que deixa todo mundo meio papagaio e como resultado, temos materiais publicados com ideias extremamente redundantes. Antigamente os intelectuais tinham mais liberdade para refletirem e darem um feedback mais construtivo, hoje em dia TUDO é lattes e prazo curto… estão matando a ciência. Mesmo que seja o normal de ocorrer com o processo de institucionalização excessiva da ciência no mundo.

    Fora isso é cansativo demais como a maioria das pessoas dentro das universidades adoram “vomitar” spinozas, Kants e Hegels sem nem terem estudado tanto sobre eles, apenas dando frases prontas e achando tudo isso o máximo. É realmente muito pobre! Enfim… tu sabe já de tudo isso porque me aguentou falando!

    E eu agradeço por todas as ideias e conselhos que você me deu, foram valiosos demais e me ajudou a não desistir do que tenho que fazer. Mais uma vez, um muito obrigada, Dona Elaine!! kkk

    Obs: Desculpa o textão e os possíveis erros de concordância, gramática e coerência que possivelmente existam no que falei. Eu tô doente mas tinha que sentar no pc para parabenizar! Agora me volto a insignificância da minha cama e dos chás! Um beijão.

    Curtido por 2 pessoas

  3. Maravilhoso post! Devemos ler cada vez mais, e interpretar, apenas, carateres cada vez menos…
    Ler mais não “apostando corrida” ou bater metas no Skoob, mas ler de forma a ampliar sua vivência de mundo, ler dialogando com o autor, e não ler pensando “Sim Senhor!”…

    Curtido por 1 pessoa

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