A Depressão de Fernando Pessoa

Eu ia escrever sobre a depressão de Fernando Pessoa, mas acho melhor que ele  mesmo fale isso para você. Com a palavra, o poeta…

“Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim. Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo […]  Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é uma realidade […] E de que cor será o sentir?”  (Carta de  Fernando Pessoa para o amigo Sá-Carneiro, Lisboa, 14 de Março de 1916.)

Agora, aí vai um trecho do poema “Insônia“.  Espero que o amigo leitor esteja sentado, porque a coisa é muuuito forte (e estilisticamente linda também).

“Não durmo, nem espero dormir.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos…
Tantos versos…
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê…

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada…
Ó madrugada, tardas tanto… Vem…
Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança […]

Álvaro de Campos, in “Poemas” (heterônimo de Fernando Pessoa)

O nosso poeta é um exemplo da capacidade que o ser humano tem para produzir tanta beleza mesmo em meio a dor.

Elaine Rodrigues
Professora de Redação e Literatura

Vídeo completo sobre a depressão de Fernando Pessoa:

Clique aqui e se inscreva no meu canal no Youtube

Recomendo:

Poemas sobre Depressão (livro grátis)

Vídeo sobre a Depressão de Clarice Lispector (parte 1)

A Depressão de Clarice Lispector (parte 2/final)

  Livro sobre depressão e transtornos psicológicos – Árvores Tímidas

 

8 comentários em “A Depressão de Fernando Pessoa

  1. 😖lembrei de quando acordava às 3h da madrugada e começava esse não durmo… Agora estou na leitura do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, é praticamente o relato da luta com a depressão. Têm horas que tenho que parar a leitura para não alimentar a agonia. Muito interessante esse foco que você tem dado nas suas postagens. Até mais🙋🏽‍♀️

    Curtido por 1 pessoa

    1. Melhor dar uma parada, mesmo, para não ficar desassossegada rsrs. Afinal, a arte serve para aliviar a agonia, não para alimentá-la.

      Eu tenho essa mania de ficar garimpando a humanidade, as tristezas e as mudanças dos escritores, não apenas o sucesso literário. Obrigada pelo comentário!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Nas palavras de um poeta tudo se torna maravilhoso… até o sofrimento ganha um ar de melancolia, de beleza… A angústia, o desespero e o nada sufocante da depressão parecem tão inspiradores… Ah, que talento!!! Mal percebemos ao ler que a face oculta da lua ri de nós, mortais, nas noites que nunca amanhecem!!! E, ainda assim, com tanta beleza, quantas verdades nessas palavras!!! E não vejo outras que poderiam explicar melhor a depressão nas noites despertas. Que talento!!
    Parabéns, amiga, por trazer estes temas tão necessários em textos que podem trazer conforto para aqueles que também enfrentam a depressão.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Estou encantada com a maneira que o poeta descreve um momento tão doloroso como a depressão.
    Diante da beleza dos versos estão ao mesmo tempo a dor e o desejo de se livrar da dor com esperança.
    A descrição feita da depressão é perfeita e triste perfeita porque encontrou exatamente as palavras que revelam a dor, definiu com palavras o que eu consigo sentir.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s